Uma tendência que aparece dentro de cada grupo pode sumir, ou até se inverter, quando você junta todo mundo numa conta só. Isso é o paradoxo de Simpson, e ele não é um erro de cálculo: os dois números estão certos ao mesmo tempo.

Um exemplo. Uma escola cruzou horas de estudo por semana com nota na prova, de 350 alunos, e o gráfico deu o que ninguém esperava: quanto mais o aluno estudava, pior era a nota. A conclusão óbvia seria mandar todo mundo estudar menos.

Olhe os mesmos 350 alunos duas vezes. À esquerda, todos juntos. À direita, os mesmos pontos, nas mesmas posições, coloridos por matéria.

Os mesmos pontos: em cinza a tendência desce, coloridos por matéria cada tendência sobe Todas as matérias juntas horas de estudo nota na prova mais estudo, nota menor? Separando por matéria horas de estudo nota na prova em cada matéria, estudar ajuda

Ninguém mudou de lugar no gráfico. Só ganhou cor, e a tendência virou.

Dentro de cada matéria, estudar mais sobe a nota. As cinco retas coloridas sobem. A reta vermelha, que é a única que existia no primeiro painel, desce.

Por que a conta vira

O que derrubava a média não era o estudo, era a composição da amostra. As matérias mais difíceis cobram mais horas e devolvem nota menor. Elas ocupam a parte de baixo e a parte da direita do gráfico ao mesmo tempo, formando degraus cada vez mais baixos. A conta geral desce essa escada e nunca enxerga a subida que acontece dentro de cada degrau.

Dá para ver a conta com duas das cinco matérias e quatro números. O gráfico abaixo marca a média de cada uma e desenha as três retas que interessam.

Duas matérias marcadas por horas médias e nota média: dentro de cada uma a reta sobe, e a reta que liga as duas desce 0 3 6 9 12 15 18 0 2 4 6 8 10 horas de estudo por semana nota na prova +0,24 por hora +0,19 por hora -0,32 por hora História 3,2 h · nota 8,9 Matemática 14,8 h · nota 5,2

As duas retas cheias são o efeito de estudar dentro de cada matéria. A tracejada liga as médias das duas, e é ela que o total enxerga.

Em História, o aluno típico estuda 3,2 horas por semana e tira 8,9. Em Matemática, estuda 14,8 horas e tira 5,2. Dentro de História, cada hora a mais soma 0,24 na nota; dentro de Matemática, 0,19. As duas retas cheias sobem.

Agora ligue os dois pontos médios. A nota cai 3,7 enquanto as horas sobem 11,6, o que dá uma queda de 0,32 por hora. Os efeitos positivos de 0,24 e de 0,19 continuam lá, intactos, dentro de cada matéria. Eles só são menores que a diferença de 0,32 entre elas, e quem soma as duas vê apenas o saldo.

É por isso que o fenômeno tem cara de paradoxo sem ser um. A reta do conjunto mede duas coisas somadas: o efeito de estudar dentro de uma matéria, que é positivo, e a diferença entre as matérias, que é negativa. Quando a segunda é maior que a primeira, o sinal do total se inverte.

A variável que faz isso tem nome na estatística: variável de confusão. Ela se relaciona com as duas pontas ao mesmo tempo, aqui com as horas e com a nota, e por isso contamina a leitura de uma pela outra.

O nome, e o caso que ficou famoso

O efeito foi descrito por Edward Simpson em 1951, mas Udny Yule já o tinha registrado em 1903, e por isso parte da literatura o chama de efeito Yule-Simpson. Nenhum dos dois tratou aquilo como curiosidade: o ponto sempre foi que somar grupos diferentes produz um número que não representa nenhum deles.

O caso mais documentado é a admissão à pós-graduação de Berkeley em 1973. Olhando a universidade inteira, a taxa de admissão de homens era bem maior que a de mulheres, e o dado sugeria discriminação. Quando Bickel, Hammel e O'Connell abriram por departamento e publicaram na Science em 1975, o quadro mudou: na maioria dos departamentos a diferença era pequena e favorecia levemente as mulheres. O que produzia o total era outra coisa. As mulheres se candidatavam mais aos departamentos mais concorridos, que admitiam menos gente de qualquer sexo.

Repare no que esse caso ensina além do paradoxo: o número agregado não era falso, e a pergunta que ele respondia não era a que estava sendo feita. Ele media a distribuição das candidaturas, não o critério de admissão.

Onde isso aparece no seu relatório

O paradoxo não mora na sala de aula. Ele mora em qualquer número que some grupos de tamanhos ou perfis diferentes.

  • Retenção. O churn da empresa subiu e caiu em todos os planos. No período entraram muito mais clientes no plano mensal, que sempre teve churn maior que o anual. Mudou o mix da base, não a retenção.
  • Teste A/B. A versão B converteu menos no total e ganhou no mobile e no desktop. O sorteio não saiu equilibrado: B recebeu bem mais tráfego de mobile, onde todo mundo converte menos.
  • Comercial. A vendedora com a pior taxa de fechamento é a melhor em toda faixa de preço. A carteira dela é de negócio grande, que fecha menos em qualquer mão.
  • Marketing. O canal mais caro no total é o mais barato em cada campanha. Ele só é acionado nas campanhas de produto caro, que custam mais para vender em qualquer lugar.
  • Pessoas. A média salarial caiu e subiu em todos os cargos. A empresa contratou muito júnior no ano: todo mundo que já estava lá ganhou aumento, e ainda assim a média desceu.

Em cada um desses casos, a decisão tomada pelo total teria sido a errada: trocar a melhor vendedora, cortar o canal mais eficiente, comemorar um aumento de salário que não houve.

Quando separar não é a resposta

A lição rápida seria "sempre olhe por grupo". Ela está errada, e é aqui que a maioria dos textos sobre o assunto para cedo demais.

Separar por um grupo qualquer não desfaz o paradoxo: pode criar um. A regra é sobre quando a variável surgiu.

  • Separe pelo que já existia antes do efeito. Matéria, região, faixa etária, plano contratado, dispositivo. Essas características estavam lá antes de o resultado acontecer, e é por isso que elas explicam o resultado em vez de serem explicadas por ele.
  • Não separe pelo que veio depois. Se você quebra o resultado de uma campanha por "quem abriu o e-mail", está separando por uma consequência do próprio efeito que quer medir. A conta engana de novo, agora na direção oposta.

Existe um segundo limite, mais desconfortável: nem sempre a visão separada é a certa. Se os grupos foram formados por sorteio, como num teste bem feito, o total é a resposta e separar por subgrupos até achar um resultado bonito é o caminho conhecido para publicar coisa que não se reproduz.

A pergunta que resolve os dois casos não é "separado ou junto?". É qual das duas contas responde à pergunta que eu fiz. Se a pergunta é "estudar ajuda?", a conta é dentro da matéria. Se a pergunta é "qual a nota média da escola?", a conta é o total, e ela continua correta.

O que fazer antes de fechar a conta

Três perguntas, na ordem.

  1. Quantos tem em cada grupo? Grupo com tamanho muito diferente é onde a mistura pesa. Se 70% da base migrou de plano no período, o total do período não é comparável com o anterior.
  2. A conta por grupo dá o mesmo sinal do total? Se der, você pode seguir com o total tranquilo. Se o sinal virar, o total não serve para essa decisão.
  3. Que variável separa esses grupos e ficou de fora? Ela é a candidata a variável de confusão, e quase sempre é uma característica que a pessoa que conhece a operação sabe de cor.

Nada disso exige ferramenta nova. Exige abrir o número por uma coluna que você já tem.

O total não conta quem está dentro dele

Toda média é uma mistura. Ela resume um grupo dizendo onde ele está, e não diz de quem ele é feito nem em que proporção. Enquanto a composição não muda, o resumo funciona. No dia em que ela muda, o resumo continua correto e para de significar o que significava.

Por isso a defesa é barata: antes de decidir por um número agregado, abra ele por um grupo que você já conhece e veja se o sinal se mantém. Leva um minuto, e é a diferença entre ler o dado e ser lido por ele.