O teste deu positivo, e ele é 99% preciso. Qual a chance de você estar mesmo doente? Se a sua cabeça respondeu 99%, ela pulou uma etapa: num rastreio de doença rara, esse mesmo positivo vale cerca de 9%.
O que muda tudo não é a qualidade do teste, é quantas pessoas doentes existiam na fila antes dele. Essa quantidade tem nome: taxa-base, ou prior. Um teste não entrega uma probabilidade pronta, ele atualiza a que já existia. Prior mais evidência é igual a posterior: é o teorema de Bayes em uma frase, e ele diz que a evidência não substitui a chance anterior, empurra ela.
A tese deste artigo é uma só: a taxa-base não é um número que se consulta, é a população que você decide pontuar. Essa escolha é a decisão de análise, e é ela que salva ou destrói o valor preditivo de um modelo bom. A conta é a parte barata.
De onde sai o 9%: conte em gente, não em porcentagem
Pegue 100 mil pessoas e teste todas ao acaso, sem escolher ninguém por sintoma, idade ou histórico. Com uma prevalência de 0,1%, ou seja, um doente a cada mil, apenas 100 dessas pessoas estão realmente doentes. As outras 99.900 estão sãs. Guarde esse desequilíbrio, porque é ele que decide o resultado, não a qualidade do exame.
Vale desarmar a expressão "99% preciso", que quer dizer duas coisas: o teste aponta positivo em 99% de quem tem a doença (sensibilidade) e negativo em 99% de quem não tem (especificidade). Nenhuma das duas é "99% de chance de o resultado estar certo": as duas primeiras são propriedades do teste, medidas em laboratório. A terceira é propriedade do teste mais a população, e só existe depois que alguém diz quem entrou na fila.
O diagrama abaixo separa essas 100 mil pessoas nos dois grupos. Nenhum desenho cabe em escala aqui: a assimetria é de 999 pessoas sãs para cada doente.
Os falsos positivos afogam os verdadeiros
O teste faz bem o trabalho dele: encontra 99 dos 100 doentes reais. O problema mora do outro lado da árvore. O mesmo teste erra 1% das 99.900 pessoas sãs, e 1% de uma multidão é maior que 99% de um punhado. São 999 pessoas sãs saindo do laboratório com um papel positivo na mão.
Somando os dois grupos, o rastreio produz 1.098 positivos, dos quais 99 são verdadeiros. Noventa e nove dividido por 1.098 dá 9,02%. O teste não piorou: continua o mesmo teste de 99%. Os erros dele foram sorteados de uma população gigante, e os acertos, de uma minúscula.
A figura abaixo mostra essa assimetria dentro da barra dos positivos.
No mundo do trabalho, a tradução é direta: um modelo excelente, caçando algo raro, passa o dia entregando alarme falso.
Não é falta de inteligência, é falta de método
Em 1978, três pesquisadores fizeram uma pergunta parecida a 60 médicos, residentes e estudantes de quatro hospitais-escola de Harvard. O enunciado era curto: uma doença que atinge 1 pessoa em 1.000, um teste que acusa positivo em 5% de quem é são, e um paciente com resultado positivo. Qual a chance de ele estar doente?
A resposta mais comum foi 95%. A certa era cerca de 2%. Casscells, Schoenberger e Graboys (NEJM, 1978).
O erro tem nome e endereço: eles trocaram a taxa de falso positivo pela probabilidade do paciente. É o mesmo atalho que a sua cabeça tentou tomar dois minutos atrás, e ele reaparece toda vez que alguém lê "modelo com 99% de precisão" como "99% de chance de o alerta estar certo". Na versão mais famosa, a da mamografia, o achado é de Eddy (1982), relatado por Gigerenzer e Hoffrage: médicos estimaram 70% a 80% para um positivo que valia cerca de 7,8%.
A parte boa é que existe conserto, e não é ficar mais inteligente. Reescrito em contagens, 100 em 100 mil, no lugar de probabilidades condicionais, o mesmo problema faz a taxa de respostas bayesianas corretas subir de cerca de 4% para cerca de 24%. Mesmo cérebro, outro enunciado. Por isso este artigo é feito de árvores e de gente contada, não de fórmula: o formato não é estética, é o mecanismo.
O mesmo positivo, dois destinos
Nove por cento não é propriedade do teste, é propriedade do encontro entre o teste e a fila em que ele foi aplicado. Troque quem entra na fila e o mesmo papel passa a significar outra coisa.
Imagine duas pessoas saindo do laboratório no mesmo dia, com envelopes idênticos. A primeira foi testada num mutirão, sem queixa nenhuma: o prior dela é 0,1%, e o positivo vale os tais 9%. A segunda procurou o serviço por causa de um sintoma que já coloca a chance dela perto de 10% antes de qualquer exame, e para ela o mesmo positivo vale cerca de 92%. Os priores são ilustrativos, o mecanismo não.
O fenômeno não é hipotético: o mesmo ensaio de sorologia muda de significado quando sai de um banco de sangue e vai para um grupo de alto risco. A diferença entre 9% e 92% não está no exame, está em quem foi examinado, como mostra o trilho abaixo.
A taxa-base não se consulta, se escolhe
A mesma pessoa é, ao mesmo tempo, um adulto qualquer, alguém com um sintoma, um contato de caso confirmado e um cliente daquela carteira. Cada uma dessas descrições é uma população, cada população tem uma taxa-base diferente, e cada taxa-base devolve uma probabilidade diferente para o mesmo resultado positivo.
Descrita como contato de um caso confirmado, essa mesma pessoa entra numa população de prior perto de 30%, e ali o positivo vale 97,7%. Mudou a frase que a descreve, não o exame.
Estatísticos e filósofos chamam isso de problema da classe de referência, nomeado por Reichenbach em 1949, com raiz em Venn (1888). Não é sutileza acadêmica: Kahneman e Tversky trataram o hábito de ignorar a informação distribucional, olhando só para o caso individual, como talvez a maior fonte de erro em previsão.
A figura a seguir coloca um único caso em três classes candidatas, cada uma com seu prior e seu posterior.
A conta de Bayes é barata: cabe numa planilha e nunca erra. Decidir qual população vale para aquela decisão é caro, é discutível e não está em tabela nenhuma. Em revisão de modelo, a pergunta que mais destrava é a mais simples: quem entrou nessa base? Quem reporta a precisão de um modelo sem dizer qual população ele pontuou não reportou nada.
Troque doença rara por fraude, churn ou crédito
Em detecção de fraude, a proporção é a do exemplo: cerca de mil transações legítimas para cada fraude. Com 1% de falso positivo, o modelo entrega dez alarmes falsos para cada acerto, e continua sendo um modelo de 99%. O valor preditivo dele não é a acurácia: é a acurácia mais a taxa-base do que você mandou ele procurar.
A raiz é sempre a mesma, a classe de referência errada, e ela reaparece nos quatro lugares do mapa abaixo.
- Fraude: um score alto num universo quase todo legítimo produz fila de revisão manual, não flagrante. Onde cortar o score depende do prior.
- Crédito: a mesma nota significa risco diferente numa carteira subprime e numa prime, porque a inadimplência de base das duas não é a mesma.
- Churn: prever cancelamento numa base em que quase ninguém cancela infla o alarme falso, e o desconto de retenção vai para quem nunca pensou em sair.
- Teste A/B: quando o time testa muitas variantes, o prior de "esta ideia funciona" é baixo, e o p-valor bonito de uma delas vira vitória que não replica: o mesmo posterior fraco com outro nome, assunto do curso de testes de hipóteses.
A precisão de um classificador, verdadeiros positivos divididos por todos os positivos apontados, é o valor preditivo positivo do exemplo médico. É Bayes com outro nome, e por isso muda quando a população muda, mesmo com o modelo congelado.
Onde este raciocínio para (e o melhor argumento contra ele)
O melhor argumento contra tudo isto merece ser dito inteiro: a acurácia é a métrica que o time controla, e a taxa-base muda sozinha, com sazonalidade, com campanha, com fraudador novo. Cobrar do time de dados que responda pela prevalência é cobrar por algo fora do escopo dele.
Esse argumento está meio certo, e a metade certa é a que interessa. A taxa-base não é sua para escolher. A população que entra no score, essa é. Quem escreve o filtro da consulta e o corte de elegibilidade já escolheu uma classe de referência, com ou sem consciência disso.
Há limites do outro lado, contra o exagero desta tese:
- O teste não é inútil. Ele levou a chance de 0,1% para 9%, quase cem vezes. Valor baixo não é ausência de informação, é informação que não decide sozinha.
- A prevalência raramente é conhecida com precisão. Quando não for, trabalhe com uma faixa e reporte o intervalo do posterior, sem fingir um número.
- O exemplo é veículo didático. Os números são ilustrativos, não descrevem doença real e não sustentam conduta clínica.
- Sensibilidade e especificidade não são o posterior. Achatar as três numa só é cometer, hoje, o erro dos médicos de 1978.
Esse erro tem um primo mais conhecido: confundir correlação com causa. Os dois nascem de ler um número sem perguntar de que população ele veio.
O que fazer com isso na segunda-feira
Antes de reportar a probabilidade que saiu de um teste ou de um modelo, responda a três perguntas em voz alta: qual população foi pontuada, qual a taxa-base dela, e quantos casos em mil isso dá. Sem resposta para a primeira, o número que vai sair do seu relatório não é uma probabilidade, é um palpite com casas decimais.
- Nomeie a população que entrou no score, por escrito, dentro do relatório.
- Escreva o prior dela e de onde veio essa estimativa.
- Converta em contagem antes de decidir: de mil casos, quantos?
O positivo do começo deste texto continua valendo 9%, e agora ele tem nome: valor preditivo positivo de uma população de prior baixíssimo. Na próxima vez que você reportar a precisão de um modelo, diga junto qual população ele pontuou. Para o mecanismo inteiro, a trilha de Estatística vai dos fundamentos ao curso de probabilidade condicional e Bayes.